A PRINCESA E O ANJO NEGRO - CONTO - DAVID GONÇALVES


Parte I

Eram sete irmãs. Seis se casaram. Menos uma. E a mais bonita. Filhas de um pequeno comerciante, que a todas reservou boa educação e dote considerável. Pouco comum, naquele tempo, as mulheres frequentarem escolas. Mas elas frequentaram ensino pago. O pai não poupou esforços. Trabalhava no velho armazém como escravo. Ele sabia que não era fácil casar uma filha que não tivesse boa educação e uma quantia razoável de moedas. Até à sua morte, durante mais de quarenta anos, quem passasse pela rua, podia vê-lo trabalhando até altas horas. Costumava-se dizer que ele tinha calos na barriga de tanto esfregá-la no balcão.

A todas elas, choveram pretendentes. Afinal, que moço de nossa região não desejava uma oportunidade desta? Todas belas, nenhuma com defeitos graves, a não ser umas pintas aqui e acolá, que ajudavam a deixá-las mais bonitas. Maria, Judite, Lindalva, Rosa, Elisa, Joana e Francisca. Dos dezoito anos aos vinte, uma a uma foi-se casando, deixando o ninho. Mas Lindalva, talvez a mais bela, não deixou.

Todos se perguntavam: o que havia de estranho? Por mais que indagassem, nada era visível. E isto atiçava a curiosidade de nossa gente. Somos uma espécie de seres aguçados pela magia que o desconhecido proporciona.

Parte II

Desde pequena, Lindalva destacava-se das outras. Conforme crescia, tornava-se mais exigente. Enquanto as irmãs contentavam-se com a vida simples da pequena cidade, ela criava ares de importância. Para ir à escola, vestia-se com esmero. Penteava-se lentamente, colocava flores nos cabelos negros, como se fosse já moça.

As outras meninas brincavam no pátio da escola, sujavam-se, algumas até brigavam e voltavam para casa com rasgões no uniforme. Lindalva não se misturava com as meninas, muito menos com os meninos. As professoras a tratavam com mimos. Era o exemplo na higiene, no comportamento e nas avaliações. Seus cadernos eram diferentes, cheios de florzinhas e cores do arco-íris. Enquanto as meninas tagarelavam, ela postava-se numa velada educação.

-- Por que não fazem como Lindalva? – esbravejava a professora de Artes. – Olhem para ela: está sempre limpa, traz as tarefas em dia!

Por isso era odiada. Qual criança que gosta de ser comparada com outra? Em pouco tempo, andava só. Ninguém queria lhe fazer companhia. Sinceramente, andar com ela seria como ficar no meio de fogo cruzado.

Mesmo ainda uma criança – nem completara treze anos --, começou a encher-se de perfumes, que ela sorrateiramente pegava das prateleiras do armazém. Tomava longos banhos, como se fossem rituais. Desde esta idade, entregou-se a uma verdadeira loucura por roupas. Todas as meninas apreciam roupas bonitas, mas com ela era diferente. Procurava destacar-se pelo charme e a novidade. Devorava as revistas de moda e procurava colocar-se na vanguarda. A moda nem tinha chegado no Rio de Janeiro ou São Paulo, ela já estava atormentando as costureiras para copiar os modelos. Isto, sem dúvida, espantava a cidade.

Em grupo, falavam coisas e coisas dela, mas, no íntimo, tinham certa inveja. Chegava a ser até mesmo ridículo. Mas logo outras mocinhas começavam a imitá-la. Todas as suas conversas giravam em torno das novidades da moda e de seus caprichos. Tornava-se chata. Era amada escondidamente e também odiada.

Aquilo, entretanto, logo se revelou uma verdadeira paixão. Seus olhos brilhavam. A mesada que recebia dos pais era consumida nestas extravagâncias. De noite, por diversas vezes, foi pilhada cortando metros de fazenda do armazém do pai, como ladra. Até mesmo caçar borboletas, como se deu com o velho alemão Fritz Walden, pode tomar conta do coração e se transformar numa paixão. Já não se trata de algo domável, mas de uma obsessão, uma espécie de doença.

Dizia às irmãs:

-- Vocês são bobas! Se agarram, desesperadas, ao primeiro homem que aparece. Até parece que o homem é uma tábua de salvação! Tolinhas...

As irmãs riam. O fato é que elas, apesar de bobinhas e desesperadas, como Lindalva apregoava, elas estavam casando. Não aguardavam o príncipe encantado. Queriam homens trabalhadores e que as tratassem bem. Mas Lindalva, a cada dia, tornava-se mais exigente.

As mulheres, então, usavam as roupas por muitos anos. Não era só para uma estação. O comerciante vendia peças inteiras, fechadas. Lindalva usava no máximo três vezes, depois abandonava as peças e ia atrás de outras novidades. Para cada ocasião, um traje. Batizados, casamentos, missas, visitas – tudo exigia um traje diferente.

Conselhos da mãe não lhe faltavam. Os pretendentes apareciam, logo sumiam. Desprezava-os, tratava-os como chinelos gastos.

-- O que você quer, afinal? – dizia a mãe, aborrecida. – Um príncipe encantado? Isto só acontece nas histórias de fada, sua bobinha! Pelo que sei, você não é nenhuma fada, com a varinha mágica...

Ela rebatia:

-- Não me casarei com um pé-rapado! Eu me valorizo. Não devo ter pressa, posso esperar.

-- Beleza não se põe em mesa, filha! Olha suas irmãs: nenhuma está aflita, estão bem casadas e muito contentes.

-- Elas não são finas. Sequer sabem usar roupas. Estão gordas e deformadas. Eis o que o casamento com esses brutamontes lhes rendeu. Eu não quero ficar assim, como tamborete.

-- Menina, olha o que diz! Elas trabalham com seus maridos. Estão indo muito bem. Querem fazer o pé de meia. Nada mais justo.

-- Ora, mamãe, de que adianta bom pé de meia, cofre cheio, se o corpo se parece com um sapo, uma mulher doente? Se é para envelhecer antes do tempo, a pretexto de servir maridos e angariar fundos, prefiro continuar sozinha.

-- A juventude, filha, é uma flor delicada, logo se desfaz. Dela, só nos restam as lembranças... Olhe para mim: pensa que sempre tive essas rugas, esses cabelos brancos, essa barriga forrada de gordura? Sem falar das varizes que me torturam... A juventude é uma ilusão...

-- Ah, mamãe, você ficou assim porque trabalhou demais, quase se matou para nos criar. É justamente isto que eu não quero! A velhice é um fantasma que me assusta, me persegue!

-- Crie juízo, menina: a beleza é uma espécie de promessa da felicidade. De que adianta tanta formosura se alguém não tem cérebro? Ela é passageira, filha, e é um bem frágil.

-- Oh, mamãe, só não quero envelhecer antes do tempo, como acontece com as minhas irmãs.

Desesperada, a mãe desistia dos conselhos. Dava de ombros e pensava: “Com o rolar dos dias, ela mudará de opinião. Não tem juízo. O amor ainda não tocou o seu coração.”

Mas não foi isto que aconteceu.

Parte III

Mulheres precisam de maridos. Quem escolhe muito acaba sozinha. Os dias passavam e Lindalva dedicava-se a certas extravagâncias. Sua beleza resplandecia e deixava os moços apaixonados, como também causava inveja.

Choviam pretendentes. Muitos eram atraídos pelo dote. Nem todas as jovens tinham esta vantagem. As pobres casavam-se ou se amancebavam por circunstâncias: nada tinham que ofertar a não ser noites quentes de amor e trabalho escravo. Precisavam ajudar os seus homens no sustento da casa. Podres de cansaço, elas tinham por obrigação oferecer a mesa posta e bons momentos de cama. Com Lindalva, o dote funcionava como visgo aos homens que vinham de longe, sempre bem arrumados. Mas ela os refutava.

-- Parece um moço tão distinto! – observava a mãe.

Ela dava de ombros.

-- Não gostei.

-- Do que não gostou? O que espera encontrar nos homens? São todos iguais. São brutos e ignorantes. De noite, não querem saber de beleza alguma. Querem ser satisfeitos!

-- Ele tem tufos de pelo no nariz. Isto, sinceramente, me dá nojo. Se tem pelos no nariz, também tem nas costas. Não quero me casar com um lobisomem! Deus me livre!

Para outro pretendente observou:

-- Cheira igual a um bode.

--Ora, qual homem que não exala suor? Só se for um maricão... E as mulheres também fedem.

-- As vulgares, talvez. Eu não me incluo nesta gentinha.

-- Do que pensa que é feita? Por acaso, nas suas veias corre água de colônia? Somos barro.

-- Seja o que for, não quero um bode velho na minha vida.

Quanto mais desprezava, mais eles se apaixonavam. Os homens gostam das flores que não conseguem colher. Muitos, sofrendo, desapareciam chapadão afora, tresloucados, e nunca mais pisaram o chão da cidade. Havia o que cobiçava o dote e aquele que se deixava dominar pela força daqueles olhos negros.

Por esta ocasião, os habitantes começaram a chamá-la de Princesa. Não era elogio, mas destrato. Talvez inveja, talvez despeito. Ou chacota. As más línguas não cochilam.

-- O que a Princesa procura?

Respondiam maldosamente:

-- A geada do ano passado.

Ora, como se as geadas pudessem ser guardadas de um ano para outro! Quem sabe, ela queria impossível.

Choviam ironias:

-- Está esperando um anjo cair do céu.

Mas anjos não habitam o terreno dos mortais.

As casadas, rodeadas de filhos, frequentadoras da igreja, já envelhecidas pelos descuidos e intempéries, invejosas, destilavam de cobras peçonhentas.

-- Toda princesa se transforma em bruxa. Deus nos livre!

Benziam-se.

-- Quem sabe, à noite, o seu rosto fica salpicado de verrugas...

Mas não ficava. O problema é que os anos passavam e a Princesa não percebia. Quando uma mulher não se casa, ela passa a criar horror pelos espelhos. Aparecem os primeiros cabelos brancos e normalmente sobrevém o desespero. Com Lindalva, nada disso acontecia. A cada dia, surpreendia a cidade com novas roupas e novos perfumes, e parecia mais bonita. Por onde andava, o cheiro das colônias pairava sobre as pessoas e as deixava inebriadas.

Suas amigas estavam casadas e ela se sentia só. As moçoilas não gostam de passear com alguém mais velha. A conversa não flui e também há o medo de que a companhia de uma solteirona dê azar... E tinha o ar esnobe: ninguém a acompanhava nas roupas, nos perfumes, nas peças de teatro que se apresentavam nas grandes cidades. Ela estava muito acima das moças que desejavam arrumar um bom marido.

Completara trinta anos. Estava pouco ligando para a idade. Embora fosse objeto de baixo falatório, ela continuava bela. Quando todos pensavam que o seu destino era a terrível solidão de solteirona, deu-se o inesperado: apareceu um raro pretendente. Vestia-se de preto. Sua cabeça sustentava um chapéu preto de abas largas. Veio do nada. Dava passadas altivas, como se desfilasse numa passarela, com todas as pompas. Suas calças eram bem vincadas e as botas de tacos fortes rebatiam no calçamento e produziam um barulho de aço.

-- Pelo sim, pelo não, aqui estou e só levarei o que vim buscar! – disse numa fala empolada, cheio de altivez.

Era um domingo à tarde e fazia muito calor. Os jovens tinham como hábito passear pela rua central. Lá estava a princesa, sozinha, indo de um lado a outro, com sua beleza insólita, como se esperasse por alguém, quando o cavalheiro negro se aproximou e, fazendo esquisitas mesuras, com um sorriso largo e desproporcional sob o bigode negro, foi dizendo:

-- Sou o teu anjo. Vim buscá-la.

Todos esperavam o desprezo usual de Lindalva. Afinal, ela tinha repudiado centenas de jovens. Algo estava para acontecer e todos previam o pior. Aquele pobre coitado sairia do encontro com o rabo no meio das pernas. Os cochichos e risos abafados já soavam nos pequenos grupos de moças.

Atônita, a população domingueira viu a Princesa dar-lhe o braço e, sorridente, acompanhou o estranho cavalheiro rua acima.

-- Ora, pois, finalmente o pé esquecido achou o seu chinelo – alguém balbuciou no meio da rua.

– Antes tarde do que nunca. Para nós, homens, há sempre uma armadilha preparada – comentou outro, sem explicar o que havia dito.

Os comentários correram soltos na rua central. Algumas moças diziam que ela o apanhara por desespero. Que tipo de homem era aquele cavalheiro vestido de preto? Ninguém sabia dizer de onde vinha e muito menos se tinha alguma posse. Os moços que haviam sido desprezados por ela soltaram a língua de trapo; as mulheres, casadas ou não, teceram fuxicos apimentados.

-- Será que ela, enfim, desceu do pedestal?

-- Por que desceria? Ela nunca teve necessidade alguma de se mostrar humana. Deve ser fria como uma pedra.

-- Provavelmente, ela conheceu a verdade.

-- Que verdade?

-- De que é muito difícil uma mulher bonita se achar realmente bonita quando a juventude declina.

Brotavam hipóteses.

-- Quem é o jovem cavalheiro?

Ninguém sabia.

Será que ela tinha este caso há tempo? Por isso, não mostrava interesse por ninguém? Bem, ela sempre viajava para as cidades grandes. Com certeza, conhecera-o numa dessas viagens. Por que não? Mas por que ela manteve aquele segredo durante tanto tempo? Isso ninguém sabia.

-- Caprichos de mulher...

Todos estavam boquiabertos. Alguns seguiram o casal rua afora. Mas, de repente, como o vento, as silhuetas desapareceram sob a leve poeira esparzida no ar abafado daquela tarde de domingo. Esconderam-se num fundo de quintal, num beco despovoado – foi a conclusão dos curiosos. Ninguém desaparece de um momento para outro, assim-assado!

Fomos à casa dela. Os pais, já envelhecidos, de nada sabiam. Disseram que ela saíra para o passeio de domingo.

Ela não apareceu naquela noite, muito menos nos dias seguintes. Uma intensa busca se desenrolou pela região, mas ninguém a tinha visto. Foi um grande alvoroço. Todos tinham as suas opiniões sobre o fato, mas não passavam de especulações. Nunca a cidade presenciara algo parecido.

-- Pobre coitada! – diziam as mulheres. – Ela percebeu que só há um jeito de sair do buraco: cavando outro buraco...

Parte IV

Depois daquele domingo uma década se passou e ninguém ouviu notícias da Princesa. Muito se falou dela e do estranho cavalheiro negro, que a raptou. Sim, é o que se divulgava: ela fora raptada.

Outros acontecimentos foram possuindo nossas cabeças e a vida seguia o seu curso. O que há de se fazer? A vida segue em frente. Até sobre a família dela os comentários sumiram. Pais e irmãs sabiam o seu paradeiro? Provavelmente, não. Eles se fecharam em conchas. Sofriam, encolhiam-se resignados ao completo silêncio. E todos compreenderam que a ferida sangrava, por isso evitavam fazer comentários. Seis filhas viviam nas redondezas, casadas, um rol de filhos, ajuizadas e benquistas na comunidade. Uma, talvez a mais bela, encabeçara diverso rumo. O que fazer?

-- Os dedos da mão são iguais?

O velho comerciante, após a partida dela, fechou as portas do armazém. Não tinha mais vigor para tocar o negócio. Trabalhara tanto para dar boa educação às filhas e, na velhice, o mundo ruíra aos seus pés. Sentia-se fraco, com dores nas pernas e tropeçava facilmente, como se elas, sem comando, bambeassem. A última vez que o vi estava numa cadeira de rodas, babava, e dizia palavras desconexas. Numa manhã de inverno, morreu. O enterro se deu sem alvoroço.

A cidade também se transformara. Havia uma revolução de conhecimentos no campo. Os costumes milenares no trato da terra foram substituídos de forma inesperada. Já não se cortava o trigo com ancinhos. Mas com colheitadeiras potentes. Abandonou-se a enxada. Os tratores reviravam a terra e, ao mesmo tempo, semeavam, distribuindo o adubo ma quantidade certa. Os pequenos agricultores – proprietários e meeiros – foram expulsos de seus sítios. Nas cidades, aglomerou-se um bando de gente que, antes, era dedicada ao trabalho mas que, diante das circunstâncias, não sabia fazer mais nada. Por isso, esse bando de gente andava de um lado para outro, vagabundeando, e muitos bebiam pelos botecos e seus filhos iniciavam-se nas drogas.

-- O ócio destrói – afirmou um professor, revoltado, pois a escola, que era até então um lugar sagrado, tornara-se de repente um lugar onde não havia respeito e alunos ofendiam os professores em público.

Essa gente queria trabalhar, mas não havia o que fazer. Eram acostumados ao trabalho duro no campo, de sol a sol. Mas os tempos haviam mudado: o campo ganhava produtividade, porém eles conheciam a miséria, e seus filhos eram criados em periferias das cidades junto com ratos e lixões.

Eis que, do nada, desembargou na rodoviária a Princesa. Chovia muito naquele dia. Uma névoa branca cobria a cidade e uma camada fina de lama vermelha tingia as ruas. Junto dela, uma garota de treze anos. Do bagageiro, desceram na plataforma pesadas malas. Ambas trajavam-se com requinte, com enormes brincos pendurados nas orelhas e sapatos de tacos altos, impróprios para a ocasião.

-- Sabe quem é a fulana? – perguntou-me o dono do restaurante, onde eu acabara de digerir saborosa refeição caseira.

Olhei-as. Não acreditei no que via.

-- É a Princesa! – exclamei surpreso e tomado pela curiosidade. – O fantasma volta ao seu chão!

-- Veja como elas andam! Eu diria que elas têm a rainha na barriga... Nunca vi tanta vaidade...

-- Não mudou nada.

-- Você as conhece?

-- Uma, pelo menos.

Fiz questão de ajudá-las a carregar as malas.

-- Para onde vão?

-- Ora, para casa – disse-me, enquanto se colocavam na minha frente e caminhavam com altivez. – Vamos, filha!

-- Mamãe, o que viemos fazer aqui neste fim de mundo? Por acaso, essa gente está ainda na pré-história?

Ela ralhou entredentes:

-- Vá em frente! Não estou disposta a dar explicações.

Estava mais velha. Mas não perdera o brilho da formosura.

Uma velha criada a recebeu. Vivia só. Logo que morrera o comerciante, também se findara a esposa. E a criada ficou morando na casa, que era parede e meia com o antigo armazém.

Deixei-as na porta. Embora ardesse de curiosidade, nada descobri. Retornei ao restaurante e já senti que a notícia se espalhara. Nossa cidade, embora tivesse hábitos novos, despertou-se rapidamente diante do inesperado retorno da Princesa. O assunto estivera adormecido durante uma década, como brasas sob cinza. De repente, bastou um leve sopro e elas se avivaram.

-- O que a traz de volta? Sumiu sem levantar poeira e voltou como se nunca tivesse pisado por aqui. Há coisas nesta história. Ninguém faz isto à toa...

E as especulações começaram. A língua espicha porque não tem ossos. Por onde andara naqueles anos? Por que, enfim, voltara? Quem era o pai daquela menina? Que fim tivera o cavalheiro negro que a raptara naquela tarde ensolarada de domingo? Boatos circulavam.

Aguardávamos impacientes o relato da sua longa ausência. Queríamos ouvir da boca dela e não através de mexericos. Para surpresa geral, ela se enfiou naquela casa e não saiu sequer na porta da rua. Víamos a criada arrastando as pesadas pernas gordas saindo com um cesto para fazer as compras, mas nenhum sinal dela. De nada valia perguntar à criada. Estava surda por causa da idade.

Restava-nos a visita das irmãs. E, de fato, isto aconteceu. Quando indagadas, diziam:

-- Perguntem a ela! – e se fechavam.

A filha, entretanto, surpreendeu-nos. Frequentando a escola, em poucos dias ficou conhecida. Tinha os mesmos hábitos da mãe quando jovem. Roupas novas, jóias, perfumes, o ar esnobe, o culto à beleza. E falava com certa petulância, colocando-se num pedestal. Uma cópia perfeita. Logo ficou odiada e comentada. Os meninos a admiravam e se apaixonavam; as meninas destilavam veneno em suas línguas afiadas. Quando falava sobre as viagens que fizera com a mãe, tornava-se indigesta e criava ciúmes na plateia que nunca havia viajado.

-- Paris! Paris! Aquilo que é cidade! O berço do amor e da poesia...

Haveria algum dote para ela? Princesa retornara com algum baú cheio de ouro? Suposições e mais suposições.

Vi a cidade regredir àqueles anos em que a Princesa desfilava altiva pelas ruas, desprezando jovens apaixonados e causando furor nas amigas, à espera de seu anjo, o cavalheiro negro.

Perguntaram, certo dia, a Elizabeth por que não se casava. Respondeu com desprezo:

-- Com esses bodes velhos? Nem morta! Esses homens pré-históricos são capazes de agarrar a mulher pelos cabelos e a arrastarem pelas ruas como troféu. Espero por algo melhor...

As moças de sua idade foram casando-se. Elizabeth, como a mãe, vivia sozinha, num pedestal. As más línguas a chamavam de Elizabeth, a rainha, já que não podiam chamá-la de princesa.

-- Se não gosta daqui, por que não vai embora?

Não havia resposta.

-- O que está esperando?

-- Espero por um anjo.

Por esta ninguém esperava. Um anjo! Mas que besteira! Anjos não habitam a terra.

-- O fruto não cai longe da árvore – diziam as mulheres que conheceram a Princesa desde pequena.

-- Só se for o Anjo Negro!

Elizabeth sacudia os ombros, desdenhando.

-- Seja o que for. Espero por ele.

Espalhou-se de forma abrupta que ela era fruto de alguma bruxaria. Quando os capuchinhos vieram à cidade para fazer uma lavagem dos pecados, apreensivos, eles foram à casa da Princesa para administrar as bênçãos. Semana Santa, quarta-feira, três deles bateram à porta, mas em vão. Não foram recebidos. Pacientes, esborrifaram água benta nos oitões e a água benta ferveu, evaporando. Eles saíram apressados, como se fugissem de uma legião de demônios, deixando as fiéis beatas apavoradas.

Na sexta-feira, quando caminhávamos para a celebração do calvário, depois de jejuar até o meio-dia, Elizabeth – com roupas novas, coloridas, pulseiras brilhantes – caminhava alegre na avenida. Parecia que ia para uma festa. Por onde passava, um lastro de colônia pairava no ar, inebriando. Aquilo era um verdadeiro sacrilégio. Mulheres se benziam e caminhavam sôfregas sem olhar para trás.

Então, para nosso espanto, no meio daquela pequena multidão que caminhava em direção da igreja naquele dia santo, surgiu um cavalheiro negro com um esquisito sorriso sob o bigode espesso, de chapéu de abas largas, e no meio de todos, depois de fazer mesuras, disse com a voz empolada e em bom tom:

-- Aqui estou, minha rainha.

Estávamos paralisados.

-- Sou o teu anjo. Vim buscá-la.

Elizabeth agarrou-se ao seu braço e, numa conversa elegante, mas abafada, como antigos amantes, caminharam rua afora. Depois, sem deixar vestígios, desapareceram.

Apavorados, não tivemos dúvidas. Era obra do demônio. Quem vira o cavalheiro negro, quando viera buscar a Princesa, não se cansava de dizer:

-- É o Anjo Mau. Eu vi. Repuxava as orelhas como Belzebu. Aquele chapéu é para esconder os chifres!

No sábado santo, algumas pessoas picharam a casa da Princesa, com nomes feios, excomungando-a. Mas ela não abriu a porta e muito menos apagou as ofensas das paredes.

Parte V

Passou-se mais uma leva de anos. O esquecimento cobriu nossas cabeças. Tudo muda. O mundo é móvel e a vida segue em frente.

Sempre que passava por perto da casa da Princesa, eu parava, perscrutando. Estaria viva ainda? A criada surda morrera. Urubus nunca pousavam naquele telhado. E ela nunca abria as janelas.

E um desses dias, em que dava minhas caminhadas, uma janela se abriu inesperadamente e vi alguém me chamando. Fiquei perturbado. O chamado era para mim. Não havia mais ninguém por perto. Não esperava que alguma janela do velho armazém se abrisse. Belisquei meu braço para ver se eu estava consciente. Um vulto me chamava. Caminhei trôpego, com chumbo nas pernas. Fosse outro teria fugido. Ao me aproximar da janela, vi o que não via há anos: a Princesa.

-- Senhor, por favor, preciso de sua ajuda...

Abriu-me a porta, que ringiu demoradamente. Mandou-me sentar. O sofá antigo e empoeirado tinha até teias de aranha.

-- Oh, desculpe a desordem... Depois que a criada se foi...

Estava curvada e enrugada. Rosto cheio de verrugas e cabelos brancos descuidados. Deixara de pintá-los. Andava com dificuldade. Comunicou-me:

-- Quero vender tudo o que tenho. Não tenho a quem deixar os meus pertences. Devem valer uma fortuna.

E me mostrou os casacos de peles, os tapetes persas e chineses, as roupas íntimas, as jóias, uma coleção de sapatos, uma infinidade de lenços e vestidos, todos bem dispostos como se fosse uma vitrine.

Fiquei aturdido. Quem compraria aquelas roupas de quarenta anos? Eram vanguarda, então, mas o que fazer com elas hoje? Ela tinha peças íntimas que nunca foram usadas. Ao menor toque, com certeza se desintegravam como poeira. O cheiro nauseabundo de naftalina provocava dores de cabeça. Assim mesmo, as traças tinham feito grande estrago. Abriu-me pelo menos uma dúzia de baús. O que fazer com tudo aquilo? Haveria algum maluco disposto a jogar dinheiro fora? Há algo mais volátil do que a moda? Os gostos mudam conforme os ventos. Mesmo as jóias – correntes pesadas, longos brincos, pulseiras enormes, grandes broches adornados, anéis de ouro maciço. Só se alguém os derretesse e transformasse em barras.

-- Quero me desfazer desses objetos.

Tentei explicar a evolução dos tempos. Minhas palavras soaram inúteis. Enfim, concordei.

-- Verei o que posso fazer.

E saí. Respirei fundo: para me desintoxicar, a plenos pulmões. Tinha entrado numa enrascada. O que ela me pedia era absurdo. Bem, pelo menos, estivera frente a frente com ela e, de certo modo, minha curiosidade fora saciada.

Uma semana depois, quando resolvi visitá-la para dizer que não aceitava a proposta, vi urubus sobrevoando a casa. Forcei a porta e ela se escancarou. Encontrei tudo revirado, baús abertos, roupas jogadas pelo assoalho empoeirado. As joias tinham sumido. No canto da sala, jazia a Princesa, putrefata, o pescoço degolado. Moscas azuis pousavam sobre a pele em decomposição. Ratões remexiam as vísceras e o mau cheiro era insuportável.

Foi enterrada às pressas. Chovia muito e sua sepultura se encheu de água e lama. Nem mesmo as irmãs compareceram. Ao sair do cemitério, tive a impressão de que o cavalheiro negro também saía. Estava sem guarda-chuva, mas não se molhava, e tinha o mesmo sorriso esquisito sob os espessos bigodes.





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